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Internacional

Dois milhões de crianças inglesas depois: aos 2 anos, o domínio que não voltou ao normal foi a comunicação

Foto: Tara Winstead — imagem ilustrativa, não retrata o evento noticiado Um estudo ecológico longitudinal publicado no BMJ Public Health em 3 de agosto de 2026, de Chua, Murray, Munford, Bennett, Hargreaves e Taylor-Robinson, analisou 2.105.384 crianças de 119 autoridades locais da Inglaterra. Os dados vêm da revisão universal de saúde e desenvolvimento feita entre […]

03 AGO 2026
Dois milhões de crianças inglesas depois: aos 2 anos, o domínio que não voltou ao normal foi a comunicação

Foto: Tara Winstead — imagem ilustrativa, não retrata o evento noticiado

Um estudo ecológico longitudinal publicado no BMJ Public Health em 3 de agosto de 2026, de Chua, Murray, Munford, Bennett, Hargreaves e Taylor-Robinson, analisou 2.105.384 crianças de 119 autoridades locais da Inglaterra. Os dados vêm da revisão universal de saúde e desenvolvimento feita entre 2 e 2,5 anos por health visitors, com o Ages and Stages Questionnaire 3, que cobre comunicação, motricidade grossa, motricidade fina, pessoal-social e resolução de problemas. A proporção de crianças que não atingiram os marcos esperados em pelo menos um domínio subiu de 15,2% em 2019 para 19,1% em 2023, e os autores registram pouco sinal de recuperação até 2025. A desigualdade territorial é explícita, com índice de desigualdade relativa de 44% entre as áreas mais e as menos carentes. A versão preprint anterior, com série de 2019 a 2024, já apontava que o maior aumento estava em comunicação, com 4,3 pontos percentuais, contra 0,9 na motricidade grossa.

Dois pontos merecem atenção. O primeiro é que o efeito não se dissolveu sozinho: seis anos depois, o indicador não voltou ao patamar anterior, o que contraria a expectativa razoável de que crianças pequenas simplesmente recuperariam o terreno. O segundo é qual domínio foi mais atingido. Comunicação é justamente o que mais depende de interação adulto-criança e o mais sensível ao contexto socioeconômico — motricidade grossa, que depende muito menos disso, quase não se moveu. O padrão é coerente e desconfortável: o que se perdeu foi conversa.

Há também uma lição de método, e talvez seja a mais aproveitável aqui. Nada disso apareceria se a Inglaterra não fizesse uma triagem universal, na mesma janela etária, com o mesmo instrumento, registrada em base administrativa. No Brasil, a Caderneta da Criança já prevê a vigilância dos marcos; o que falta, em geral, é preenchimento e digitalização — sem isso o município não tem série histórica própria e descobre o problema pelo noticiário estrangeiro. Para a creche, dá para transformar rotina em dado: um registro simples por criança, na mesma faixa de idade, repetido a cada ciclo. E entre 18 e 30 meses, vale observar de perto a comunicação — vocabulário, resposta ao nome, combinação de duas palavras — sem rótulo, sem comparação entre crianças, apenas como algo que merece conversa com a família.

Não se descobre o que não se registra — e a criança não espera o município montar o indicador.

Fontes

  • BMJ Public Health — “Time trends and area-level socioeconomic inequalities in early childhood development at 2-2.5 years old in England between 2019 and 2025: a local area ecological study” (Chua YW et al., DOI 10.1136/bmjph-2025-003161) — 03/08/2026 — https://doi.org/10.1136/bmjph-2025-003161
  • medRxiv — preprint da versão anterior do mesmo estudo, série 2019-2024 — 15/03/2025 — https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2025.03.14.25323968v2.full